⚠ CENA DO CRIME — NÃO ULTRAPASSE ⚠
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Wiltshire Police · B.O. 2025-OSMO · Classificado

O Dossiê
dos Mortos

Uma investigação que começa onde ...

Confidencial
— Sinopse —

Frederich é assistente da detetive Kara Dickson, e acredita que conhece o ritmo da investigação, o peso do crime e a rotina do medo. Mas algumas mortes não seguem padrões - elas parecem responder a algo mais antigo, mais pessoal, que ninguém consegue explicar.

Enquanto cada caso se desenrola, Frederich se vê atravessando limites que nunca imaginou. O passado e o presente se confundem, e a linha entre realidade e obsessão começa a se apagar. Memórias distorcidas, pistas incompletas e segredos silenciosos surgem em lugares inesperados, como se alguém - ou algo - estivesse observando cada movimento.

O Dossiê dos Mortos é uma história sobre investigação, mistério e a fragilidade da mente humana, onde cada descoberta é apenas o começo de uma inquietação que não deixa o leitor respirar.

Entre suspense e terror psicológico, cada capítulo mergulha mais fundo no desconhecido, deixando perguntas que só se resolvem quando se olha de frente para o que se teme enfrentar.

Entre a razão e a loucura, existe apenas uma linha tênue - e ela está manchada de sangue.

Cavar uma cova é muito cansativo. Meus ombros cedem. Fecho os olhos por um instante e diminuo o ritmo de minha respiração.
◈ Fichas das Vítimas
Vítima Nº2
Nashira, Naomi
Idade: 25
Local: Casa de madeira
B.O.: não registrado
Causa: ???
Marca: Símbolo — tatuagem
Símbolo identificado — origem desconhecida
◈ Sumário — Estudo do Caso
Cap. I Cavar uma cova é muito cansativo. Cap. II Ficha — Grace Coleman B.O. 2025-09-1298 Cap. III Leio toda a ficha criminal... Caps. IV É verdade quando meu filósofo favorito, Friedrich Nietzsche... Cap. V Sabe quando...
Cap. VI Tem um corpo na sala de jantar.
Caps. VII A sala de Dickson tem um cheiro de café...
Cap. VIII Ficha - Celina Starky B.O. 2025-12-1654-HOM
Cap. IX A biblioteca de arquivos...
Cap. X Em casa sempre consigo pensar melhor...
Cap. XI Fechar os olhos não apaga nada.
Cap. XII Abro os olhos...

Capítulo I

Cavar uma cova é muito cansativo.



Meus ombros cedem após o exaustivo trabalho, meus olhos ardem, por isso fecho-os por um instante e diminuo o ritmo de minha respiração.

A partir desse instante, penso muito nas últimas horas - foram as horas mais corridas da minha vida - agora não posso mais reclamar que ela é entediante. Quando volto a abrir os olhos, há um corpo em minha frente que estou tentando ignorar desde o ocorrido.

Naomi Nashira, uma jovem mulher de 25 anos, trabalhava em uma modesta padaria na cidade vizinha. Ela morreu. E não havia ninguém ali para salvá-la.

Avanço com cautela até seu corpo e me agacho até poder ver em detalhes cada um dos fios de seus pequenos cílios. Não quero carregar seu corpo porque vou sujar minhas mãos e minhas roupas, vai demorar para limpar quaisquer resquícios de sangue. Mas tenho que terminar o serviço, então a pego e apoio sua cabeça em meu ombro direito.

A última pá de terra já foi, agora é só ir embora e não voltar, a não ser que seja realmente necessário. Estou torcendo para que não seja. A cena que encontrei nesta casa nunca vai sumir de minhas lembranças.

No caminho para o portão, me deparo com a seguinte questão: passa ônibus nesse lugar? Sei que eu não deveria pensar nesse tipo de coisa logo após enterrar uma pessoa, mas não estou afim de ir para casa a pé numa terça-feira de madrugada às 3:45, em frente a uma velha casa de madeira, construída a anos numa ruazinha sem vida.

Decido chamar um táxi e, depois de longos minutos, ele chega. Entro, digo o endereço de minha casa e espero o motorista colocá-lo no GPS e dirigir em silêncio até chegarmos.

Chego no meu apartamento e acendo a luz, indo em direção ao armário da cozinha em busca de alguma bebida forte e encontro uma garrafa de whisky. Sento-me no sofá para repensar as últimas horas que se passaram naquela casa e achar um jeito de contar à minha chefe o ocorrido, de uma forma que a deixe o menos estressada possível por eu ter tocado em um corpo que devia ter sido examinado pelos caras da perícia. Em minha defesa, a culpa não é minha. Quais as minhas defesas? Ainda não tenho nenhuma, mas ainda tenho bastante tempo para pensar em uma para apresentar até amanhã para minha chefe.

Kara Dickson. Minha chefe, Kara Dickson, a melhor detetive policial dessa cidade. Vou ter que enfrentá-la ou esperar que descubra por si mesma e queira me demitir, apesar de eu ser apenas seu mero assistente e, com ou sem mim, seu trabalho será feito. Além do mais, não acho que ela vá me demitir agora, já que sabe da minha situação atual.

Isso não é importante.

Muitas mortes estão acontecendo nessa cidade e, justo eu, presenciei a mais brutal delas e não quis deixar o local do crime intacto. Não achei justo Naomi ser deixada naquela situação e preferi enterrá-la. Não deveria ter feito isso, deveria ter corrido, chamado a polícia, ter deixado Dickson resolver o caso como sempre faz e ter ficado na penumbra como sempre acontece.

Estou cansado de não fazer nada com base nos meus próprios pensamentos e ideias.

Estou cansado de fugir.

Estou cansado de mim mesmo.



Estou atrasado.

Chego no escritório com a blusa manchada do café que tive que engolir às pressas hoje de manhã, o cabelo castanho-escuro está desalinhado, caindo sobre os olhos pretos cansados. O rosto fino, a barba por fazer e a pele pálida me dão o mesmo ar de insônia de sempre. Luto com a gravata para que pelo menos ela esteja apresentável, mas não consigo.

Me apresso para pegar os papéis que, por sorte, deixei organizados em cima da minha minúscula mesa de trabalho e entro na sala da detetive Dickson. Quando entro, ela está sentada na sua grande poltrona de couro.

Kara Dickson é do tipo que impõe respeito antes mesmo de falar - os cabelos loiros estão presos num rabo de cavalo apressado, a blusa preta amarrotada denuncia que ela não dormiu direito há dias. Tem olheiras fundas, mas o olhar, afiado como uma lâmina, não perde nada.

Sua mesa está uma bagunça de lápis, papéis e copos - e mais copos - de café. Isso é um sinal de que ela está nervosa. Muito nervosa.

- Está atrasado! Já terminou com esses papéis? - Espero que essa pergunta seja retórica, porque não quero responder nada. Deixo os papéis em um canto da mesa que não está tão bagunçado.

Estou pronto para pedir licença, mas algo me chama a atenção em sua mesa.

Não sei se me aproximo para ver o que é, mas, em pouco tempo, vejo que ela segue meu olhar e percebe minha curiosidade sob aquele objeto. Ela se aproxima da mesa, estica o braço e pega um colar estranhamente familiar para mim, mas não consigo me lembrar onde o vi. Antes que eu me aproxime para vê-lo de perto, Kara volta a falar.

- Vejo que ficou curioso para saber sobre este estranho pingente. Foi encontrado numa velha casa de madeira a alguns dias. - Se ela percebe meu nervosismo após essa frase, não demonstra - Ainda não sabemos qual o seu significado, mas suspeito que está ligado aos crimes de assassinato da região. - Ela suspira, claramente cansada deste caso, até então, insolucionável - Volte para sua mesa, vou para uma reunião.

Ela guarda cuidadosamente o colar em um pano e o coloca numa gaveta. Saio da sala logo atrás dela para ir até minha mesa e penso na informação que ela acabou de me dar.

Não há dúvidas de que é a mesma casa em que deixei o corpo de Naomi a sete palmos no quintal, mas o que mais há naquela casa, a não ser o que já foi encontrado? Acho que preciso voltar nos acontecimentos de algumas semanas antes de tudo vir à tona. Preciso voltar à primeira vítima. Grace Coleman.

CONFIDENCIAL
WILTSHIRE POLICE DEPARTMENT

FICHA POLICIAL

B.O. 2025-09-1298-HOM
REGISTRO OFICIAL

Data: 29/09/2025

Delegacia: Wiltshire Police

Delegado: Malcolm, Charles

Investigadora: Dickson, Kara

DADOS DA VÍTIMA

Nome: Coleman, Grace

Idade: 24

Mãe: Coleman, Claire

Pai: Coleman, Owen

Sexo: Feminino

Estado Civil: Solteira

Nacionalidade: Inglesa

Profissão: Ajudante de Cozinha

Altura: 1,64

Peso: 62,7kg

Cabelo: Ruivo

Olhos: Azuis

Local de trabalho: The Garden Table, Red Velvet House

Profissão: Ajudante de cozinha, Garota de Programa

LOCAL DO CRIME

Endereço: Southampton, 07 — Bairro Britford

Horário Presumido: 26/09/2025 — 03:14

Condições: Mal iluminado, condições precárias de saúde (lixo, fezes, cacos de vidro ensanguentados, corpos de animais dilacerados).

DESCRIÇÃO DO CRIME

Tipo: Homicídio Qualificado, Violência Sexual

Causa da morte: Estrangulamento

Objetos apreendidos: Tesoura, máquina de corte de cabelo, faca, cordas, alicate.

Vestígios: Sangue, sêmen, saliva, rasgos de tecido e tufos de cabelo.

Estado da Vítima: Encontrada nua, com cortes profundos sobre o corpo, olho esquerdo arrancado, ausência da perna direita, cabelo raspado e, em suas costas, a marca de uma queimadura com o formato de um símbolo não identificado.

TESTEMUNHA

Nome: Miles, Dylan

Profissão: Barista

Local de Trabalho: Starbucks

Endereço: Southampton, 13 - Bairro Britford

Telefone: +44 1896 548913

“ Eu 'tava' ouvindo barulhos estranhos entre uma e quatro da madrugada. Todas as noites eram os mesmos sons, isso 'tava' me deixando louco, mas não sabia exatamente o que fazer. Já faz cinco dias que não durmo direito. Eles (os barulhos) 'era' como rangidos altos e metal batendo um no outro. Até que resolvi chamar a polícia.”

Suspeitos: Nenhum.

OBSERVAÇÕES

A vítima foi sequestrada, torturada, abusada sexualmente, estrangulada e após a sua morte, seu corpo foi dilacerado.

Capítulo 3

Leio toda a ficha criminal enquanto estou a caminho da casa onde, por muito tempo, morou Grace Coleman.

Enquanto estava lendo, fiz algumas pausas para assimilar tudo. A morte dela foi inteiramente cruel e desumana, além de ter apenas uma testemunha, não há suspeitos até o presente momento.

Tiro meu celular do bolso e percebo que há várias chamadas perdidas de Kara. O certo seria ligar de volta, mas preciso me lembrar do que houve; parece até que um buraco negro engoliu parte de minhas memórias sobre os acontecimentos dessas últimas semanas. Talvez seja porque andei apenas sobrevivendo estas últimas semanas.

Mas por que eu preciso me lembrar? Poderia apenas dar meia-volta e ir para a minha pequena mesa da delegacia e dizer para Kara que fui atender uma emergência com o meu gato Schrödinger e que... Não sei. Algo me diz que preciso entrar e ver por mim mesmo a parte que falta na minha memória, mas tenho medo do que isso pode dar.

Agora estou parado em frente à antiga casa de Grace Coleman. Uma mulher capaz de aguentar qualquer canalha no Red Velvet House, mas que não foi capaz de fugir do canalha que a esperava para lhe dar um destino cruel. Prostitutas não são vistas com bons olhos em nossa sociedade, por isso sempre tive minha admiração por essa mulher em silêncio. Admiração por ela não ligar de receber olhares de julgamento da cabeça aos pés (ou ao menos não demonstrava ligar), por permanecer sempre forte mesmo passando por desafios que a própria vida nos traz como teste. Ela já foi muito humilhada na vida e, mesmo assim, se mantinha firme. Sei disso porque ela era uma boa amiga, não minha melhor, mas ainda boa.

Grace...

Depois de olhar e ver que não há ninguém na rua, tomo coragem e ultrapasso a fita da polícia, que, na teoria, era para impedir a entrada de qualquer um, mas isso são detalhes. Pulo o muro e, em um instante, já estou dentro da casa, vendo que muitos objetos pessoais de Grace estão no chão da garagem. Dou a volta na casa para ver se há alguma passagem, mas, como eu já deveria ter esperado, não tem nenhuma.

Decido voltar e pular o muro novamente. Devia ter esperado também que Kara fosse esperta o suficiente para saber que eu estaria aqui. Penso que ela vai começar um sermão daqueles, porém ela só me olha tranquila e diz:

- Entra no carro. - Sim, ela me disse apenas isso. Medo.

Com certo nervosismo, entro no carro. O ar-condicionado está ligado, assim como o som, que toca a música "Heavy is The Crown", da banda Linkin Park. Ouvir esta banda me deixa um pouco mais distraído, mas não alivia totalmente a tensão presente no interior do veículo. Minha adorável chefe entra no carro e logo gira a chave, fazendo seu Golf ganhar vida, porém, antes de acelerar e deixar para trás a casa de Grace, ela se vira pra mim.

- Freddie... - Odeio ser chamado assim. - Sabe que não pode entrar num local interditado pela polícia, sem ao menos ter uma autorização. - Se ela soubesse o que mais andei fazendo... Ouço sua respiração entrecortada, que mostra o quanto está preocupada com algo que ainda não sei. - Organize algumas fichas que deixei na delegacia e pode ir pra casa. Por hoje é só.

A música já está no final e não consegui nenhuma pista. Talvez eu consiga algo novo nas tais fichas.

Ai, como eu amo o meu trabalho.


Quando volto para o escritório com Dickson e vejo toda aquela agitação diária, respiro fundo e me preparo para ver o que tem nas tais pastas que ela me mandou.

Sento-me em minha mesa, pego a primeira e abro. Nela tem a ficha de Grace Coleman que li mais cedo, e algumas fotos, tanto do local de assassinato quanto de sua casa, além de uma foto dela quando ainda estava viva.

A segunda pasta está com mais papéis anexados que a primeira e relata os detalhes sobre os principais acontecimentos da investigação, como as vítimas, testemunhas, principais suspeitos (nenhum até agora), locais dos assassinatos e outras informações. Como disse, a pasta está cheia, vou levar um tempo para organizar tudo.

Este trabalho é bem remunerado, mas cansa a mente de qualquer um.

Quero ir pra casa.

Me levanto e vou até a garrafa de café que dispõem aqui, pra ver se consigo me concentrar melhor. Depois de pegar um copo, volto para a minha mesa e para aqueles papéis.

Para começar, abro novamente a pasta com as informações do assassinato de Grace e vejo uma foto que nunca tinha visto antes. Me impressiono ao ver Grace e Naomi juntas. As duas sorrindo para a foto, como grandes amigas que se encontraram para tomar um café e conversar. Meus dedos doem ao apertar a beirada da mesa por causa do meu nervosismo. Nunca pensei que minha amiga e a mulher que enterrei naquela madrugada se conheciam, isso me causa ainda mais medo do que posso descobrir.

Os registros daquelas horas não existem na minha memória. Apenas lacunas, um intervalo em branco, como se alguém tivesse rasgado essa parte do meu dia.


Gosto de tomar um banho frio quando preciso despertar de verdade.

A água escorre rápido pelo meu corpo, mas parece que nada vai levar embora a tensão que me percorre desde cedo.

Não olho a foto daquelas duas desde hoje de manhã, mas consegui trazê-la. Roubei da delegacia. Dentro do bolso da calça. Não poderia ter feito isso, mas precisava estudá-la mais um pouco.

Enrolo a toalha em volta do quadril e saio do banheiro. Atravesso o quarto e me visto às pressas. Já na sala, vejo a foto que deixei na mesa de centro quando cheguei. Sei que parece loucura, mas ela parece me observar e estou com receio de encará-la novamente.

Devagar e respirando fundo, pego a foto e tento captar todos os detalhes dela. Primeiro fixo nos olhares voltados para a câmera, seus sorrisos, o fundo desfocado, seus cabelos soltos, suas roupas, a...

Então finalmente a vejo. Naomi está com uma blusa larga que mostra uma parte da clavícula; nela é possível ver a tatuagem de um símbolo familiar. Mais uma vez tenho a mesma sensação de déjà vu.

Que símbolo estranho é este?

Se parece com uma flor, mas não era exatamente uma flor.

À primeira vista, parecia uma rosa. Mas, quanto mais eu encarava, menos beleza conseguia ver.

As pétalas não eram delicadas - eram afiadas, irregulares, cortadas como se tivessem sido arrancadas à força.

Quanto mais observava, mais tinha a sensação de que aquilo me observava de volta.

Meu estômago se revira.

Já vi esse símbolo antes.

Mas não assim. Não em tinta.

Memória em corte seco. Um corpo sem vida.

Carne queimada. O mesmo desenho marcado a ferro.

Grace Coleman.

Capítulo 4

É verdade quando meu filósofo favorito, Friedrich Nietzsche (sim, meu quase xará), diz que "O pensamento profundo muitas vezes é uma doença do corpo." O que quero dizer com isso é que, quanto mais pensei acerca dos assassinatos, mais fiquei me sentindo preso em minha própria mente, como se carregasse um peso invisível na cabeça, que já começava a me cansar.

Ainda nesta linha de pensamento, lembro-me de que Nietzsche não é totalmente contra o pensamento e que ele apoia os de vertente criativa, aqueles que movimentam. Por isso, estou há 15 minutos tentando levantar da minha cama e ir trabalhar, mesmo não tendo ao menos pregado os olhos a noite inteira.

Fecho os olhos. Tento silenciar a mente, mas o corpo pesa.

Conto até três - se eu não levantar no três, talvez não levante nunca.

Um...

Dois...

Três.

Nenhum músculo se move.

Apesar disso, minha mente grita -as imagens dos corpos de olhos abertos, porém sem vida.

Me forço a abrir os olhos novamente. A luz que atravessa as cortinas finas do quarto é forte demais pra quem passou a noite em claro.

Aos poucos, meu corpo vai obedecendo os comandos que lhe dou e, em pouco tempo, estou de pé. É incrível como uma mente cansada interfere no corpo do ser humano.

Depois de sair do banheiro com a aparência um pouco melhor, vou até a cozinha com a intenção de fazer um café e pegar minha pasta para ir trabalhar -principalmente a foto perturbadora que preciso devolver.

O café passa pelo filtro lentamente, e seu cheiro convidativo se espalha, o vapor quente sobe pelo meu rosto, e o silêncio reina no apartamento. Até que um toque irritante corta este silêncio. Demoro pra perceber que é meu celular tocando lá da sala e decido não atender, já que ninguém que eu conheço ligaria às sete da manhã apenas pra jogar papo fora, sempre é para pedir algo.

O café está pronto e o celular não para de tocar. Eu deveria atender para saber se é algo importante.

Pego uma xícara de café e vou para a sala e, ao me aproximar do aparelho, vejo que quem está ligando é Dickson, então algo de muito urgente deve ter acontecido. Atendo.

- Friederich - sua voz tenta soar firme, mas consigo notar certo nervosismo nela. - Venha para Birchwood Way, casa de número 30, agora. Encontramos outra.

Por um momento, fico sem saber o que responder e, quando finalmente abro a boca, percebo que ela já desligou.

Por alguns segundos, fico apenas olhando para o celular na minha mão, como se a voz dela ainda estivesse presa no aparelho.

"Encontramos outra."

Essas duas palavras ecoam na minha cabeça.

Coloco a xícara sobre a mesa, percebendo só depois que o café escorre pelas bordas e mancha a madeira. As mãos tremem -não de medo, mas de cansaço acumulado, de um tipo de exaustão que não tem cura com sono ou remédio.

Pego a pasta, enfio a foto de volta nela, pego as chaves do carro e visto o casaco amarrotado que estava jogado no sofá desde ontem.

Antes de sair, olho para o espelho da entrada. Por um instante, não reconheço o homem refletido. Os olhos fundos, a barba malfeita, o rosto que parece mais pálido a cada caso novo. Já não me reconheço mais e me pergunto se o corpo de quem investiga também começa a apodrecer por dentro.

A rua está fria e enevoada quando desço do apartamento.

Enquanto dirijo, fico pensando no que me espera em Birchwood Way, e quando finalmente chego, vejo as luzes azuis e vermelhas piscando entre as árvores. A casa número 30 é modesta, com uma cerca branca e um vasto jardim. Policiais caminham de um lado para o outro, e uma multidão de curiosos se forma do outro lado da rua.

Estaciono, respiro fundo e desço do carro.

O único som que realmente ouço é o de meus próprios passos -o resto parece abafado, como se o mundo estivesse longe.

Dickson me vê se aproximar e acena, o rosto dela tenso, o olhar sem brilho.

Quando chego perto, ela suspira.

- É igual às outras, Friederich... - diz, sem me encarar. - Só que dessa vez, parece que ele quis deixar um recado.

Capítulo 5

Sabe quando um turbilhão de ideias invade sua mente e você não sabe em qual se concentrar? Você se sente tonto e até com a visão turva? É exatamente assim que me sinto agora, depois de entrar naquela casa e ter visto o que vi.

Capítulo 6

Investigação em andamento
Alguns arquivos foram esvaziados. Alguns corpos, enterrados. Algumas vozes, reconhecidas — mas não nomeadas.