Revisão — Boas Práticas Laboratoriais

📚 AULA 1

Produtos Químicos — Manuseio e Armazenamento

Substância pura ou mistura com composição química definida, caracterizada por propriedades físicas e químicas (cor, odor, densidade, ponto de fusão/ebulição). Pode existir nos estados sólido, líquido ou gasoso.

Todo produto químico possui risco! Os riscos podem ser controlados e minimizados com condições adequadas de manuseio, armazenamento e uso de EPIs.

Cuidados básicos com produtos corrosivos

  • Reagem violentamente com produtos orgânicos → causam incêndios e queimaduras graves.
  • A diluição deve ser sempre no diluente, nunca o contrário.
  • Usar sempre material de vidro para homogeneização.
  • Não usar metais em contato direto com corrosivos.
  • Nunca jogar corrosivos na pia.
  • Usar EPIs sempre que manipular esses produtos.

Regras Gerais de Armazenamento

  • Não armazenar oxidantes próximos a líquidos voláteis e inflamáveis.
  • Armazenar em recipientes apropriados e identificados.
  • Evitar choques físicos entre recipientes.
  • Local fresco, bem ventilado e sem exposição ao sol.
  • Em caso de dúvida: consultar a FISPQ do produto.

Incompatibilidade Química

Condição em que produtos se tornam perigosos quando armazenados próximos, podendo reagir e gerar gases, calor excessivo, explosões ou reações violentas.

🔥

Oxidantes

Os mais perigosos. Podem formar O₂ durante reações, causando incêndios e explosões se próximos a combustíveis. Ex: peróxidos, nitratos, bromatos, cloratos, permanganatos.

⚗️

Ácido acético + oxidantes

NÃO armazenar juntos. Risco de reação violenta, liberação de calor e incêndio. Regra: oxidante + composto orgânico = risco de combustão.

☠️

Ácido sulfúrico + água

Nunca misturar diretamente. Gera reação exotérmica intensa (respingos e queimaduras). Sempre adicionar ácido à água, nunca o contrário.

☢️

Ácido sulfúrico + cianetos

Libera gás HCN, altamente tóxico. Ácidos fortes + sais reativos = risco de gás tóxico.

💨

Ácido sulfídrico + oxidantes

Não armazenar próximos. Formação de gases tóxicos e possível ignição. Regra: redutores + oxidantes = reação perigosa.

Regra prática de incompatibilidade

  • Oxidantes ≠ Inflamáveis
  • Ácidos ≠ Bases
  • Reativos com água ≠ umidade
  • Orgânicos ≠ agentes oxidantes

Setorização do Armazenamento

Princípio básico: separar por classe de risco e compatibilidade química — nunca por ordem alfabética.

ClasseExemplosComo armazenar
🔥 InflamáveisÁlcool, acetona, solventesArmário ventilado/corta-fogo, longe de calor, faísca e oxidantes
⚗️ CorrosivosHCl, H₂SO₄, NaOHBandejas de contenção; ácidos ≠ bases; evitar contato com metais
🔴 OxidantesPeróxidos, nitratos, permanganatoIsolados, longe de inflamáveis e materiais orgânicos
☠️ TóxicosBenzeno, anilinaLocal ventilado, acesso restrito, bem identificados
⚡ ReativosCianetos, substâncias que reagem com águaIsolados, protegidos de umidade, controle rigoroso
🗑️ ResíduosSeparados por classe, identificados (nome + quantidade)

FISPQ — Ficha de Informações de Segurança

No Brasil, a FDSM é chamada de FISPQ (norma ABNT NBR 14725, vigente desde jan/2002). Documento elaborado pelo fabricante com informações sobre perigos, uso correto, sintomas de superexposição e procedimentos de emergência.

A FISPQ deve conter obrigatoriamente 16 seções. As mais importantes na prática:

⚠️

Seção 3

Identificação de perigos

📦

Seção 7

Manuseio e armazenamento

🥽

Seção 8

Controle de exposição / EPI

Seção 10

Estabilidade e reatividade

Número CAS e Diagrama de Hommel (NFPA)

O número CAS (Chemical Abstracts Service) identifica unicamente cada substância química, constando na Seção 2 da FISPQ.

O Diagrama de Hommel (NFPA) usa losangos coloridos para indicar riscos, com valores de 0 a 4 (quanto maior, mais perigoso):

🔵

Azul

Risco à saúde (0 = Normal; 4 = Mortal)

🔴

Vermelho

Risco de incêndio (0 = Não queima; 4 = Extremamente inflamável)

🟡

Amarelo

Reatividade (0 = Estável; 4 = Pode detonar)

Branco

Riscos específicos: OXY (oxidante), ACID, ALK, COR (corrosivo), radioativo etc.

Procedimentos de emergência

  • Derramamento de mercúrio: coletar, ventilar, descartar. Gotas maiores: cobrir com polissulfeto de sódio, enxofre em pó ou zinco em pó para amalgamar.
  • Derramamento de ácido: neutralizar com base (carbonato de sódio, carbonato de cálcio ou bicarbonato de sódio). Ácido clorídrico: neutralizar com amônia.
  • Derramamento de base: neutralizar com pó de ácido cítrico.

Fluxo correto no laboratório

1️⃣

Recebe o produto

Verificar embalagem e integridade

2️⃣

Consulta FISPQ

Seções 3, 7, 8 e 10

3️⃣

Armazena corretamente

Separado por classe de risco

4️⃣

Usa com EPI

Luvas, jaleco, óculos etc.

5️⃣

Descarte adequado

Seguindo normas de resíduos

📚 AULA 2

Água para Laboratório — Métodos de Obtenção

A água usada em laboratórios deve ser obtida a partir de água potável, tratada em sistema que garanta especificações exigidas pelos órgãos reguladores. A escolha do método depende do espaço físico, custos e aplicação.

Importância da água no laboratório

⚗️

Reagente Universal

Usada em reações químicas e preparo de soluções.

🧪

Solvente Universal

Dissolve grande variedade de substâncias químicas.

🧼

Limpeza e Esterilização

Limpeza de vidrarias e equipamentos; processos de esterilização.

Métodos de obtenção de água purificada (Tipo III)

🫧

Destilação

A água entra na caldeira, é pré-aquecida, entra em ebulição e condensa — produzindo água química e bacteriologicamente pura.

🧲

Deionização

Remove sais dissolvidos via resinas de troca iônica (catiônica troca H⁺; aniônica troca OH⁻). Menos usado atualmente — eficaz para íons, mas microbiologicamente ineficiente.

💧

Osmose Reversa

Método mais eficaz. Empurra a água sob pressão através de membrana semipermeável. Baixo custo, instalação compacta, uso contínuo sem regeneração.

Osmose: fluxo do solvente de solução pouco concentrada → mais concentrada, através de membrana semipermeável. A osmose reversa inverte esse processo usando pressão.

Tipos de Água de Laboratório

TipoPurezaObtençãoAplicações
💧 Tipo IIIBásicaDestilação, deionização ou osmose reversaPreparo de soluções gerais, limpeza de vidrarias, autoclave, meios de cultura, esterilização
💧💧 Tipo IIMédia (condut. máx. 1 µS/cm)Múltipla destilação, deionização ou osmose reversa + destilaçãoHistologia, EAA, espectrofotometria UV-VIS, microbiologia, diluição de amostras
💧💧💧 Tipo I (Ultrapura)Máxima (condut. máx. 0,1 µS/cm)Tratamento de Tipo II + osmose reversa/deionização + filtração 0,2 µmICP-MS, HPLC, biologia molecular, eletroforese, cultura celular, genômica

⚠️ A água Tipo I deve ser usada imediatamente após a produção para evitar recontaminação!

Fluxo de produção da água ultrapura

Água potável → Pré-filtração → Osmose reversa → Deionização → Filtração 0,22 µm → Água Tipo I

Parâmetros de Qualidade

Condutividade elétrica

Indica presença de íons dissolvidos. Quanto menor, maior a pureza.

🔋

Resistividade

Quanto maior a resistividade, maior a pureza. ρ = 1/σ

🌿

TOC

Carbono Orgânico Total. Avalia contaminantes orgânicos (importante para HPLC e espectrofotometria).

🧫

Pureza microbiológica

Ausência de bactérias, fungos e endotoxinas. Crítica para culturas celulares e microbiologia.

Tipos de Contaminação

  • Iônica: sais e metais → altera condutividade, pH e interfere em análises instrumentais.
  • Orgânica: compostos orgânicos dissolvidos → aumenta TOC, interfere em HPLC e espectrofotometria.
  • Microbiológica: bactérias, fungos, endotoxinas → problemas em cultura celular, formação de biofilme.
  • Particulados: poeira, sílica → pode obstruir filtros e equipamentos.

Fontes de recontaminação

  • Armazenamento inadequado
  • Recipientes mal higienizados
  • Tubulações contaminadas
  • Falta de manutenção dos sistemas
  • Saturação de resinas deionizadoras
  • Manipulação incorreta da água ultrapura

Impacto do uso de água inadequada

📊

Análises químicas

Resultados falsos, alteração do branco analítico, precipitação de reagentes.

🧫

Microbiologia

Crescimento microbiano indesejado, contaminação de meios de cultura.

🧬

Biologia molecular

Degradação de DNA/RNA, inibição de PCR.

🔬

Equipamentos

Entupimento de colunas, danos em HPLC e ICP-MS.

📚 AULA 3

Gerenciamento de Resíduos — Químicos e Biológicos

Resíduos de Serviços de Saúde (RSS) são resultantes de atividades de hospitais, clínicas, laboratórios e farmácias. A gestão inadequada pode causar riscos à saúde pública e ao meio ambiente.

Classificação — RDC 222/2018

A RDC 222/2018 (CONAMA 358/05) regulamenta as boas práticas de gerenciamento de RSS e classifica os resíduos em 5 grupos:

GrupoTipoExemplosDescarte
🦠 AInfectantes / BiológicosSwab com secreção, placa de Petri contaminada, cultura bacterianaSaco branco com símbolo de risco biológico
☠️ BQuímicosCorantes, ácidos, solventes, metanol, reagentes vencidosFrasco rotulado, separado por compatibilidade
☢️ CRadioativosResíduos de radioterapia, medicina nuclearConforme normas CNEN
🗑️ DComunsLuva limpa (sem contato com fluidos), papel, restos alimentaresColeta comum ou reciclagem
🩹 EPerfurocortantesAgulhas, lancetas, lâminas, tubos quebrados, ponteiras contaminadasColetor rígido (Descarpack), máx. 2/3 da capacidade

🩹 A luva SEM contato com líquidos corpóreos é Grupo D! Com contato → Grupo A. Agulha → sempre Grupo E. Reagente vencido → Grupo B.

Subgrupos do Grupo A

🧫

A1 — Culturas

Meios de cultura, placas de Petri, estoques de microrganismos. Destinação: autoclavação antes da disposição final.

🐭

A2 — Animais

Carcaças e peças anatômicas de animais de experimentação. Destinação: conforme PGRSS e normas ambientais.

🫀

A3 — Peças Humanas

Membros amputados, órgãos removidos, produtos de fecundação <500g/<25cm/<20 sem. Destinação: sepultamento ou cremação.

🩺

A4 — Menor potencial

Linhas venosas, sobras de amostras sem relevância epidemiológica. Normalmente sem tratamento prévio.

🧠

A5 — Príons

Órgãos/fluidos de pacientes com suspeita de doenças priônicas (ex. Creutzfeldt-Jakob). Destinação: incineração obrigatória.

Gerenciamento do Grupo B (Resíduos Químicos)

  • Cadastrar todos os produtos com FISPQ completa.
  • Respeitar prazos de validade e atualizar o inventário regularmente.
  • Verificar frascos sem rótulo ou com rótulos ilegíveis.
  • Manipulação apenas por pessoas treinadas com EPIs.
  • Minimizar geração: controle de estoque, substituição de reagentes, reúso, reciclagem.

Regras de Segregação de Resíduos Químicos

Resíduos podem ser coletados no mesmo recipiente se tiverem mesma periculosidade + mesmo estado físico + compatibilidade entre si. Critérios:

  • Perigosos ≠ Não perigosos (ABNT NBR 10004)
  • Sólidos ≠ Líquidos ≠ Gasosos
  • Incompatíveis nunca no mesmo frasco

Identificação e Rotulagem

O rótulo deve conter:

  • "Resíduo químico perigoso"
  • Composição química (nomes completos, não fórmulas)
  • Frases de perigo, pictogramas e palavras de advertência
  • Nome do responsável e do laboratório gerador
  • Volume armazenado e datas de armazenamento
  • Número de controle da embalagem

Recipientes para coleta

  • Material compatível com as características físico-químicas do resíduo.
  • Dentro do laboratório: capacidade máxima de 20 L.
  • Recipientes sempre perfeitamente vedados.
  • Resíduos não devem ser armazenados por muito tempo.

Coletores de Perfurocortantes (Grupo E)

  • Paredes rígidas, resistentes à punctura e vazamento.
  • Identificados com símbolo de risco biológico + inscrição "PERFUROCORTANTE".
  • Preencher apenas até 2/3 da capacidade (ou a 5 cm da boca).
  • Proibido esvaziar para reaproveitamento.
  • Localizar próximo ao local de uso.

Erros frequentes vs. Conduta correta

Erros a evitar

Frascos sem identificação • Misturar resíduos incompatíveis • Descartar reagentes na pia sem avaliação • Ultrapassar 2/3 do coletor • Usar recipientes inadequados • Guardar produtos vencidos

Conduta correta

Rotular o recipiente imediatamente • Separar por compatibilidade • Consultar FISPQ e protocolos • Substituir coletores antes do limite • Recipientes adequados ao resíduo • Atualizar inventário regularmente

PGRSS — Plano de Gerenciamento de Resíduos

Documento técnico obrigatório para todo estabelecimento de saúde. Descreve princípios de não-geração, minimização, tratamento e disposição final dos resíduos, diferenciados por categoria. No SP, fichas de recebimento e destinação devem ser arquivadas por 5 anos.

Manejo de Resíduos — Etapas

1️⃣

Segregação

Separação na fonte geradora em recipientes identificados.

2️⃣

Acondicionamento

Embalagens resistentes e apropriadas para cada tipo.

3️⃣

Armazenamento

Área temporária ventilada, protegida e sinalizada.

4️⃣

Transporte

Carrinhos fechados e específicos para cada tipo de resíduo.

5️⃣

Tratamento

Autoclavação, incineração — reduzem carga microbiana ou periculosidade.

6️⃣

Descarte Final

Aterros sanitários, incineração ou métodos aprovados pelos órgãos competentes.

🃏 FLASHCARDS

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✏️ QUIZ

Teste seus conhecimentos!

Responda todas as questões e veja sua pontuação no final.

QUESTÃO 01 • Produtos Químicos

Ao diluir um ácido corrosivo, qual é o procedimento correto?

QUESTÃO 02 • Produtos Químicos

Por que oxidantes são considerados os mais perigosos para armazenamento?

QUESTÃO 03 • Produtos Químicos

Qual das situações abaixo representa uma incompatibilidade química?

QUESTÃO 04 • Produtos Químicos

Qual seção da FISPQ deve ser consultada para saber qual EPI utilizar?

QUESTÃO 05 • Água para Laboratório

Qual método de purificação de água é considerado o mais eficaz para uso laboratorial e não requer regeneração?

QUESTÃO 06 • Água para Laboratório

Para qual tipo de análise a água Tipo I (ultrapura) é obrigatória?

QUESTÃO 07 • Água para Laboratório

O que o TOC (Carbono Orgânico Total) avalia na água de laboratório?

QUESTÃO 08 • Gerenciamento de Resíduos

Uma luva descartável usada em procedimento SEM contato com fluidos corpóreos é classificada como resíduo:

QUESTÃO 09 • Gerenciamento de Resíduos

Até qual nível de preenchimento deve ser fechado um coletor de perfurocortantes (Grupo E)?

QUESTÃO 10 • Gerenciamento de Resíduos

Resíduos de meios de cultura e placas de Petri contaminadas pertencem a qual subgrupo do Grupo A?